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POESIAS ✊🏽 CAROLINA MARIA DE JESUS











Poesias de Carolina Maria de jesus  

Aí vai alguns poemas da nossa primeira poetisa negra uma sequência poética:


“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”. São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.

 


A Rosa

Eu sou a flor mais formosa

Disse a rosa

Vaidosa!

Sou a musa do poeta.


Por todos su contemplada

E adorada.


A rainha predileta.

Minhas pétalas aveludadas

São perfumadas

E acariciadas.


Que aroma rescendente:

Para que me serve esta essência,

Se a existência

Não me é concernente…


Quando surgem as rajadas

Sou desfolhada

Espalhada

Minha vida é um segundo.

Transitivo é meu viver

De ser…

A flor rainha do mundo.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.


Muitas fugiam ao me ver… 

Muitas fugiam ao me ver

Pensando que eu não percebia

Outras pediam pra ler

Os versos que eu escrevia


Era papel que eu catava

Para custear o meu viver

E no lixo eu encontrava livros para ler

Quantas coisas eu quiz fazer

Fui tolhida pelo preconceito

Se eu extinguir quero renascer

Num país que predomina o preto


Adeus! Adeus, eu vou morrer!

E deixo esses versos ao meu país

Se é que temos o direito de renascer

Quero um lugar, onde o preto é feliz.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996


Sonhei

Sonhei que estava morta

Vi um corpo no caixão

Em vez de flores eram Iivros

Que estavam nas minhas mãos

Sonhei que estava estendida

No cimo de uma mesa

Vi o meu corpo sem vida

Entre quatro velas acesas


Ao lado o padre rezava

Comoveu-me a sua oração

Ao bom Deus ele implorava

Para dar-me a salvação

Suplicava ao Pai Eterno

Para amenizar o meu sofrimento

Não me enviar para o inferno

Que deve ser um tormento


Ele deu-me a extrema-unção

Quanta ternura notei

Quando foi fechar o caixão

Eu sorri… e despertei.

– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996, p.174.

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